Tempos d'estio

Tempos d'estio

Estrada do sítio poeirenta, feia e triste - mato ralo coberto de pó vermelho, pedra e buraco no chão, para quando chover alagar o mundo e a lama vermelha e ensaboada grudar em sapato, pneu e sola do pé, para a menina ir e voltar afundada em náusea, chacoalhando no Înibus cheio de cachaça ou perfume excessivo, de frangos em sovacos, de pobreza triste entrando em poros e sentidos.

A ida dos sábados de manhã incluía saltar no Meia-Noite e caminhar estrada adentro alguns quilÎmetros com sacos, bolsas e comidas para consumo no fim-de-semana eterno, contrariando o tempo acelerado dos sábados e domingos de exceção com a permissão de diversões adolescentes. A volta custava caminhar sob trouxas e embrulhos e alguma colheita do sítio para economizar na feira da semana; custava arrastar mil quilÎmetros até o ponto de Înibus bolsas e sacas pesadas de laranja, aipim, tangerina, os passos enterrando na lama o restinho de infância, o agridoce da adolescência, os sonhos de vida glamurosa e leve. Algumas vezes a mãe determinava que se tomasse o trem numa célere meia-parada no sítio de Pedro Pinto, já saindo tão depressa que a menina suava em pesadelos: e se eu ficar para trás? E se não conseguir subir no vagão com todas as bolsas? E se a irmãzinha se perder? E as bolsas? E o peso?

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