Queridos,
Uma senhora idosa que tem ido todas as 4as feiras, ontem, antes de começarmos, disse que não gostava de alguns contos do livro, por serem muito pornográficos, por falar das coisas sem delicadeza. Bateu na minha testa: 'ela está falando do meu Cantiga de Bazar...', que deve ser o conto mais grosso do livro. Então, durante o debate, quando a questão levantada foi a diferença entre o erótico e o pornográfico, dei minhas posições:
1. erótico passa pelos 5 sentidos, pela sensualidade; sexo-pele, sexo-olfato, sexo-paladar/visão/audição;
2. a carga negativa do pornográfico está relacionada à agressão: seja com relação a sexo (violento, pedófilo), com relação à pobreza das ruas, à violência, à corrupção, à política suja... tudo isso é pornográfico na minha leitura;
3. a diferença entre eles é sempre política (no sentido amplo);
4. sexo é sagrado: animais fazem para procriar, o ser humano faz por prazer (há gente q só tem um filho... - nessa hora todo mundo riu); e se, segundo a Bíblia, o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, e sexo é uma pulsão natural do corpo, Deus quer que façamos sexo, porque ele próprio deve fazer ou faria se pudesse;
5. para os chineses, a saúde está ligada a comer (para matar a fome), beber (para matar a sede), dormir (para satisfazer o sono), trepar (para satisfazer o desejo). Obviamente, usei esses termos exatos (rsrsrs);
6. a sujeira está no olhar de quem vê/lê. Por exemplo, se eu falar 'boceta', algumas pessoas dirão que sou grossa e vulgar; mas se lêem em Machado incontáveis vezes 'boceta de rapé', a palavra (descontextualizada) se esvazia de 'agressividade', vulgaridade, o medo se dispersa. O medo da palavra, a censura à palavra, limitam, cerceiam, ferem a liberdade mais profunda do ser.
Vocês podem imaginar o entusiasmo, todo mundo falando junto como se havaianos fossem... como eu adoro uma polêmica, curti demais! No final a velhinha veio me pedir um autógrafo, me abraçou e beijou. Descontraiu, estava sem a carranca do começo. Não é o máximo?
Cyana
