Tempos d'estio

Estrada do sítio poeirenta, feia e triste - mato ralo coberto de pó vermelho, pedra e buraco no chão, para quando chover alagar o mundo e a lama vermelha e ensaboada grudar em sapato, pneu e sola do pé, para a menina ir e voltar afundada em náusea, chacoalhando no Înibus cheio de cachaça ou perfume excessivo, de frangos em sovacos, de pobreza triste entrando em poros e sentidos.

A ida dos sábados de manhã incluía saltar no Meia-Noite e caminhar estrada adentro alguns quilÎmetros com sacos, bolsas e comidas para consumo no fim-de-semana eterno, contrariando o tempo acelerado dos sábados e domingos de exceção com a permissão de diversões adolescentes. A volta custava caminhar sob trouxas e embrulhos e alguma colheita do sítio para economizar na feira da semana; custava arrastar mil quilÎmetros até o ponto de Înibus bolsas e sacas pesadas de laranja, aipim, tangerina, os passos enterrando na lama o restinho de infância, o agridoce da adolescência, os sonhos de vida glamurosa e leve. Algumas vezes a mãe determinava que se tomasse o trem numa célere meia-parada no sítio de Pedro Pinto, já saindo tão depressa que a menina suava em pesadelos: e se eu ficar para trás? E se não conseguir subir no vagão com todas as bolsas? E se a irmãzinha se perder? E as bolsas? E o peso?

Os pesos eram muitos. Da vida econÎmica, das bolsas pesadas, da roupa empoeirada na chegada de volta. Aquelas bolsas tinham de tudo. Até galinha. Um dia a galinha preta escapou da bolsa no centro da cidade. Voou pela janela do lotação. A menina foi incumbida de saltar correndo e perseguir a galinha preta e gorda que iria para a panela naquela tarde de domingo em que era sorte ser tarde e ser domingo.

A galinha preta que iria para a panela tinha nome. Ela atendia por Josocar. Com vergonha e tristeza a menina alcançou a galinha, aninhou Josocar com carinho como um bebê de colo, como filhote de cachorro, e devagar e a contragosto a devolveu para a bolsa, as canelas finas ainda amarradas com sabedoria pelo caseiro bêbado e desdentado. O castigo de Josocar castigava também a menina, que tentava conversar com a galinha preta e a convencer a novamente pÎr seus ovos grandes e amarronzados. Decididamente, nada nem ninguém a poderia salvar. A náusea vinha, no Înibus sujo e temperado, só de pensar em comer Josocar ensopada, a única maneira que a mãe sabia preparar. Com batatas. Doía pensar em comer o único animal de estimação permitido, nem cão nem gato, mas a galinha de macumba que se aninhava na cama para pÎr ovos grandes e amarronzados, cacarejando orgulhosa.

No dia em que foi comprada, a galinha foi logo pondo um ovo grande. E a mulher começou a fazer planos com as ninhadas futuras. A menina queria Josefina, segundo nome da melhor amiga da escola. A irmã queria Sofia, personagem do livro que lia às tardes, depois da escola. E a mãe preferia Carlota. Assim, num exercício inconstante de democracia, juntaram-se sílabas e a galinha virou Josocar. Ao chamado do nome, Josocar vinha fazendo festa, linda, preta, gorda e brilhante, cacarejando baixinho, quase pedindo colo. E agora, Josocar ia acabar na panela, inexoravelmente. Defendê-la, quem haveria de? E na quarta-feira, dia de feira, Josocar foi assassinada, depenada, cortada, cozida com cebolas e batatas, e as duas irmãs até se sentaram à mesa, coração pequeno e triste batendo depressa, se interpondo entre garfo e estÎmago. E Josocar acabou na lixeira (pode ter sido, também, congelada e um mês depois, metamorfoseada em suflê).

O tempo passou. Só muito mais tarde a menina conseguiu lembrar dos bons momentos, de brincar de comidinha, de despencar ribanceira abaixo em carrinho de menino, de escorregar pelo barro de bunda, tomar banho de poço com medo de cobra d’água, ouvir história de assombração, fazer teatrinho e bandinha, descobrir diferenças, especialmente as sociais. Subir em árvore e fugir de boi manso. Sentir na pele as gotas de orvalho e sereno no caminho de manhã para comprar broa de milho na padaria do seu Afonso com medo de coisa pouca, catando flor e fruta do mato, defendendo irmã do perigo, moendo cana e fazendo melado. Houve até um dia em que menstruou pelos caminhos.

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Contato

Cyana,

Lembra-se de mim? Eliane Stoducto! Continuo a mesma (inevitavelmente alguns anos mais velha...) mas meu endereço de email mudou!:) li_stoducto@yahoo.com.br

Nos conhecemos no Mistura Fina, lembra? Descobri, recentemente que vc conhece a Esther, do Porcas e Parafusos e, quiçá, o Servio Túlio, meus compadres blogueiros... Pois...
Acabei de atualizar o site Letra de Corpo e tomei a liberdade de colocar um poema seu lá. Vá ver em http://letradecorpo.lua-negra.net/letraA.html e me escreva assim que possível, ok?

um grande beijo

Eliane Stoducto

ps: as letrinhas daqui estao com os sinais truncados...

Oi

Cyana, adorei o conto e a visão infantil de fatos que, aparentemente, são simples, mas que na mente pura de um criança tomam outras proporções.

Um beijo Thales.

resposta

Thales,

obrigada pelo comentário sensível. Penso e sinto como você!
Beijos,
Cyana

Oi

Cyana, a perspectiva infantil é aguçada e, por vezes, nos marca indelevelmente por toda a vida.

Lindo o conto e estou gostando muito do Todos os Sentidos.

Mil beijos.

Com um abraço do Thales (thalestreiger@terra.com.br).