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Seminovos reunidos em coletânea

Poeta traz o olhar do cotidiano para poesia

Bia Cruz
26/11/2003

Olhar para as coisas simples do cotidiano e enxergar nelas poesia. Parece clichê, mas assim são as poesias de Cyana Leahy, reunidas no livro Seminovos em bom estado, que fogem do lugar comum e ganham força exatamente pela simplicidade que demonstram. Nesta coletânea, a poeta dá ao leitor a sensação de que sua poesia transborda os sentidos e vai além da percepção visual. Seus versos exalam cheiros, gostos, sons e texturas, conservando ora lirismo, ora crueza, não sem alguma dose de melancolia ou de humor.

Além da observação do cotidiano, Seminovos em bom estado apresenta uma profunda observação do ser humano, desde conflitos mais aparentes como os cabelos brancos que surgem em "Aposentadoria", até a solidão de "Cárcere". Que o leitor não se espante se reconhecer em alguns versos um pouco de si mesmo.

Os poemas seminovos, selecionados pela própria autora, extraídos de livros já publicados como Biombo e Íntima paisagem, entre outros, deixam a alma renovada e, com certeza, em muito bom estado.

Poema mais que lento

Cheguei do mundo suado
Deixei tudo lá fora
Limpei os pés ao pé da porta
Para entrar em nosso ninho de aromas

Aguando pelo sorriso doce
Me achei mais que perdida
Embebida em pensamentos
De temperos cozinheiros

Agora zen hesito
Entre o ensopado que ferve
E a fome de teu corpo
(que diferença faz)

Mais que lentamente
Dispo o vestido amarelo
- teus olhos marrons glacês em minha pele –
E mergulho na água blue

Análise

meu freudiano analista
precisa de avalista
tem que ser analisado
nunca foi à telefônica
tentar se comunicar
falar de pé na cabine
cercado dos olhos do mundo
nunca o rubor na face
exibiu o seu impasse
no centro desta cidade
nunca correu até o balcão
para comprar mais cartão
na telefônica central

meu freudiano analista
nunca ficou até tarde
esperando a mensagem
com instáveis promessas
vindas dos mares de Marte
e mudanças de humor
da meteorologia
nem comprou roupa preta
para clarear o amor

meu freudiano analista
nada sabe
da gruta quente
da pira ardente
no amor de final de século

(Cyana Leahy)


Poesia
Reprodução

"A poeta dá ao leitor a sensação de que sua poesia transborda os sentidos"